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SABEH publica nota contra a destruição do Rio São Francisco



Guerra Ecológica no São Francisco

Nota sobre a situação do Rio São Francisco, por uma verdadeira Revitalização.

“Ao Rio e Pelo Rio a Vida Ocorre”.


Nos últimos dez anos, assistimos o acelerado processo de degradação da bacia do Rio São Francisco. Vimos a principal nascente do Rio em Minas Gerais secar e o mar avançar devastadoramente na sua foz, salinizando a terra e as aguas subterrâneas, principal fonte de água para o consumo humano de comunidades ribeirinhas nesta região.
Vimos diagnósticos trágicos sobre a irreversível degradação do Cerrado. Considerado o mais velho bioma, é ele que alimenta as águas do velho Chico e vimos seus afluentes desapareceram por completo. O biólogo Jader Soares Marinho Filho, professor do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB), anunciou que mais de um quinto do total do Cerrado poderão ser extintos em menos de 30 anos se não receberem proteção imediata, segundo Marinho, 11 mil espécies de plantas poderão desaparecer do sistema ambiental brasileiro.
Assistimos ainda, o bioma Caatinga, maior vegetação da bacia do São Francisco, gradativamente exaurir sua capacidade com o desmatamento, queimadas e agrotóxicos dos monocultivos de fruta para exportação, cana e eucalipto. Vimos a famigerada sangria do Velho Chico com a transposição e inúmeros canais de irrigação beneficiarem latifúndios, resignificando a velha indústria da seca, enquanto as comunidades que mais precisam continuarem com sérios problemas hídricos. Vimos, recursos para a convivência com o Semiárido serem cortados e programas como 1 milhão de cisternas de placas para captação de água de chuva serem substituídas com a cisterna de plástico inapropriadas para o Semiárido. O maior gargalo posto à vida do São Francisco é a regularização de sua vazão provocada pela Chesf – Companhia Hidroelétrica do São Francisco, em nome da matriz energética e do controle de cheias, a vazão em 2015 manteve-se numa média entre 600 a 900 m³/s sob autorização da ANA – Agencia Nacional da Água e do IBAMA. Neste cenário, a Chesf utilizou o discurso de justificativa na seca, para manter a baixa vazão e a regularização do setor elétrico.Todavia, a seca como fenômeno natural no Semiárido, apesar de ter sido uma das maiores dos últimos 80 anos agravou-se, em face aos níveis devastadores de degradação. Evidente, os fenômenos antrópicos tornaram mais intensos os efeitos naturais. Contudo, a regularização da vazão do rio privilegiou claramente, o setor energético e o agronegócio em detrimento das populações ribeirinhas.
Vimos ainda, como consequência de diminuição da vazão, o desaparecimento de espécies, mudanças de ciclos reprodutivos, além de mudanças significativas da biota do rio, sendo as comunidades tradicionalmente pesqueiras ignoradas pelas autoridades, uma vez que são estas as que mais sofrem com o sistema de deterioração da biota do rio.
As contradições socioambientais do São Francisco, aparecem num cenário de crises políticas e econômicas, onde a Natureza e a Ecologia Humana se colocam em situações de vulnerabilidade. Portanto, torna-se urgente, uma política pública de Estado que preserve a natureza, as populações mais vulneráveis e os territórios étnicos e tradicionais pelos quais se coloca como os mais preservados, estes, vítimas da especulação e da usurpação do agro e do hidronegócio devastador.
O Rio São Francisco e seu Povo exigem uma verdadeira revitalização que leve em consideração o presente e o futuro da humanidade. A Ecologia Humana requer a preservação das identidades culturais locais, o cuidado e recuperação à todos os biomas que sustentam os sistemas ecológicos da vida. Requer um desenvolvimento sustentável capaz de superar a fome, as doenças, a violência, analfabetismo e todas as formas de preconceitos. A Ecologia Humana exige uma
São Francisco Vivo.

Pela Coordenação da SABEH
Alzeni Tomáz